sábado, 20 de outubro de 2012

“Avenida Brasil”: Fim da novela não teve o famoso “fechou com chave de ouro” tão esperado depois de sete meses de várias cenas impactantes e atuações brilhantes


Adriana Esteves, definitivamente, mostrou que Carminha sempre foi a dona absoluta de “Avenida Brasil”, novela das nove da Rede Globo que chegou ao fim nessa sexta-feira (19). A atriz dominou todo o último capítulo em cenas impactantes. “Atira em mim. Acaba com a tua vingança. Não era isso que você queria?”, diz a megera para Nina, a justiceira vivida por Débora Falabella. Mas no geral, o desfecho deixou muito a desejar, principalmente depois de duas semanas de acontecimentos eletrizantes que envolveram os principais personagens da trama de João Emanuel Carneiro e que resultaram na morte de Max, interpretado brilhantemente por Marcello Novaes.

Criou-se uma expectativa tão grande em torno de quem matou Max que mesmo quando Carminha assumiu sua culpa, ainda no começo do capítulo, a sensação era de que a qualquer momento iria aparecer um outro “verdadeiro assassino”.  A repentina tomada de consciência da personagem, que se tornou amada pela maioria do público justamente pela sua trajetória como vilã, não convenceu. “Gente como a gente tem que pagar pelo que fez”, afirmou ela, numa tentativa patética de servir de exemplo à humanidade.

Resta saber se esse era realmente o final planejado por João Emanuel. Afinal, saindo um pouco do universo da ficção, uma novela que rendeu aos cofres da emissora um faturamento de R$ 2 bilhões não deve ter ficado à mercê apenas dos desejos do autor. Tanto que pela primeira vez foi encomendada uma pesquisa ao Ibope para saber que final o público desejava. Ou seja, havia uma tentativa velada de agradar aos consumidores dos anunciantes da trama.  A pesquisa foi realizada pelo Conectaí, portal de pesquisa online do Ibope. Dos 4.437 internautas que se manifestaram, 81% queriam um final infeliz para Carminha e 22% sugeriram que ela deveria voltar para o lixão. Ou seja, o desejo do público alvo dos anunciantes foi atendido.

No mais, quem ganhou seu momento de glória foi mesmo Adauto (Juliano Cazarré), que, após superar seu “trauma” de ainda usar uma chupeta, conseguiu marcar um gol de pênalti e voltou a ser ídolo no Divino. Nem Tufão ganhou uma última cena com tal destaque. O personagem de Murilo Benício se juntou à turma do segundo plano, mostrada em tomadas rápidas na festa de casamento de Cadinho (Alexandre Borges) com suas três mulheres, Alexia (Carolina Ferraz), Verônica (Débora Bloch) e Noêmia (Camila Morgado). Esse quarteto, aliás, foi desnecessário durante toda a novela. Se a ideia era reunir todos os personagens em uma grande festa que fosse então no casamento de Tufão com Monalisa (Heloísa Périssé).

As últimas sequências, no lixão, quando Nina e Jorginho (Cauã Reymond) levam o filho para conhecer a avó, Carminha, e Lucinda (Vera Holtz), foram emocionantes. Mas inverossímeis em vários detalhes, como no risoto preparado por Carminha. De onde ela tirou ingredientes para a receita? Se ao menos Nina tivesse levado, mas o casal chegou sem nem ao menos levar uma cesta básica para colaborar para o almoço. É incoerente também Jorginho ser de uma família que já comprou até um shopping e não tirar Lucinda do lixão. Ela já sabe que é inocente, não precisa mais se penitenciar. Se for pelas crianças, por que então ele e Nina não abriram um orfanato? Até o Picolé (João Fernandes), que eles tinham dito que iriam adotar, foi esquecido no final.

O sucesso de “Avenida Brasil” é incontestável. Não foram poucos os momentos em que, durante sete meses, João Emanuel fez o público perder o fôlego, rir, chorar e aguardar ansiosamente pelo próximo capítulo. O trabalho de elenco, direção, produção e de toda equipe por trás das câmeras mereceu elogios no decorrer de toda a novela. Mas faltou o famoso “fechou com chave de ouro”. Como já ouvi um cineasta dizer, o roteiro de um filme pode até não ser uma obra-prima nos primeiros 90 minutos, mas se for impactante nos últimos 30, o público vai sair de cinema dizendo que adorou.

Enfim, agora é aguardar “Salve Jorge”, de Glória Perez, já na expectativa de ser surpreendida pela autora. Impossível não lembrar que ela é discípula da grande Janete Clair, que não tinha medo de ousar e era mestra em surpreender no final, como quando matou o protagonista de “Pecado Capital”, Carlão, interpretado por Francisco Cuoco, no último capítulo da novela exibida em 1975.

Em tempo: A ideia da morte de Carlão foi sugerida pelo diretor da novela, Daniel Filho, pois o par romântico formado por Lucinha (Betty Faria) e Salviano Lisboa (Lima Duarte) tinha agradado muito mais do que Lucinha e Carlão.