Foi bem sacada a ideia de trazer Mocotó de volta
fazendo uma participação na nova “Malhação” que estreou na segunda-feira (13),
na Globo. O personagem interpretado por André Marques nas primeiras temporadas
da série teen, lançada em 1995, mostrou que continua sendo o mesmo atrapalhado
e metido a sedutor de 17 anos atrás - apesar dos muitos quilos a mais - e agitou
a primeira semana. A nova fase começou com um ritmo ágil, texto apurado e
tocando em temas conectados à realidade da atual geração de jovens, com o mundo
virtual da internet totalmente inserido no contexto.
Enquanto Mocotó faz uma participação inicialmente de
duas semanas, Alice Wegmann, que interpretou Andréa na temporada de 2010 e no
ano seguinte fez a Sofia da novela “A Vida da Gente”, está de volta com uma nova
personagem, a rebelde Lia. E a atriz já deu sinais de que será um dos destaques
do elenco atual. Ela tem conseguido mostrar em sua interpretação que Lia é uma
jovem que desafia os padrões de moda e de comportamento para sufocar seus conflitos
internos, causados pela ausência da mãe.
Alice forma com Agatha Moreira e Guilherme Prates,
respectivamente intérpretes de Ju e Dinho, o principal triângulo da série.
Ju é apaixonada por Dinho, que por
sua vez já ficou com a melhor amiga dela, Lia. Eles são colegas do 2° ano do Colégio Quadrante, onde se passa grande parte da
história. Enquanto Lia tem um estilo grung, Ju faz a linha meio patricinha básica. Ligada em moda, ela tem um blog de beleza
no qual sempre dá dicas online de maquiagem e cuidados com a pele para as
adolescentes de sua idade. Dinho, com seu jeito desligadão, não convence muito como o “pegador”
da turma, a não ser pelo fato de não se ligar de verdade a nenhuma menina. Gosta mesmo é de planejar
às escondidas sua sonhada viagem pelo mundo.
Outro que ganhou destaque nos cinco primeiros
capítulos foi Orelha, o típico Nerd, vivido por David Luca, que filma tudo que
acontece na escola com seu celular e depois exibe as imagens na internet, na
sua TV Orelha. O ator sem dúvida tem talento para o humor, como já havia revelado
no seriado “Minha Nada Mole Vida”, de 2006, quando tinha apenas 10 anos de
idade. Já entre as muitas novatas, chamou
a atenção Caca Ottoni, que parece bem sintonizada com sua Morgana, a menina que
joga runas e vive a fantasia de ser a “elfa” Elanor. Independentemente das
magias que envolvem a personagem, a atriz tem carisma e uma expressão forte no
vídeo.
A boa audiência que o programa vem alcançando indica
que as autoras Rosane Svartman e Glória Barreto estão acertando nos
ingredientes usados para atrair o público. Em meio a situações que mesclam
romance e humor, estão lá as inseguranças do primeiro amor, a troca de
confidências entre amigos, o ciúmes da melhor amiga: “Juro que nossa amizade
nunca vai acabar por causa de um garoto”, diz Lia propondo um pacto com Ju.
Algumas cenas mostraram comportamentos nada
exemplares, a começar pela forma grosseira como o diretor Matias (Blota Filho)
age com todos no colégio. “Morreu alguém, diretor?”, pergunta um aluno. “O seu
futuro, imbecil!”, responde o “mestre”. Fora de aula também acontecem, como
quando Dinho sobe no telhado de sua casa e se deita com fones para ouvir música
olhando as estrelas. Seus pais veem e acham até graça da inconsequência do
filho, sem alertá-lo do perigo de uma queda. Também foi exagerada a ousadia de
Fatinha (Juliana Paiva) ao puxar Dinho para um beijo na boca no meio da festa
de Ju, sabendo que ele é a grande paixão da colega. “Não existe mais essa de
ficar esperando para ver se o cara tá a fim. Ataca!”, tinha aconselhado ela
antes. A personagem é apelidada de Facinha pelos garotos por causa de seus figurinos exageradamente provocantes e da forma como se joga para cima deles. Alimentar essa onda de periguetes é
estimular uma liberalidade vulgar entre as jovens, e em horário bastante inadequado.
A miscigenação familiar e as conquências que a separação de pais provocam nos filhos é recorrente
em vários núcleos. Lia vive com o pai, a irmã
caçula e a avó, porque sua mãe deixou a família e se lançou no mundo quando ela
tinha 9 anos. Ela sofre às escondidas pela ausência materna. Dinho mora
com a mãe, Alice (Carla Marins), que é separada se seu pai, Mário (Eduardo Galvão),
que por sua vez tem outro filho, Tico (Xande Valois), com a segunda mulher, Bárbara (Maria Paula), de
quem também já se separou. Dinho até leva na boa essa mistura e tem muito carinho pelo meio-irmão. Mas será que não há nesse Colégio nenhum aluno que tenha uma família nos moldes tradicionais, com os pais ainda formando um casal e morando todos juntos?
Apesar da importância em se tratar de tantas questões
que mexem com o emocional dos adolescentes, é preciso levar em conta que o
universo de “Malhação” sempre privilegiou e continua privilegiando muito mais os jovens da classe média. O Colégio
Quadrante é uma escola pública, mas com dependências que mais lembram a West
Beverly High School de “Barrados no Baile”, série americana exibida nos anos 90.
A justificativa de ser pública para mostrar “diferentes realidades” ainda não
se confirmou, pois até agora todos parecem muito bem-nascidos, desfilando
figurinos de grife, usando equipamentos eletrônicos de alta tecnologia. O menos
favorecido, e nem por isso menos engajado na turma, é Pilha (Peter Brandão),
que vive com sua madrinha, a diarista Rosa (Tânia Toko). Mas, por enquanto, ele
só aparece na hora de alegrar a galera improvisando letras de funk, já que seu
sonho é se tornar um MC.
Para perder de vez o estigma de ser chamada de “novelinha”, “Malhação” ainda precisa expandir mais seus horizontes e mostrar a realidade de jovens de outras camadas sociais em outros núcleos. Mas, vamos aguardar os próximos capítulos, já que ainda há muitos outros personagens a entrarem nas próximas tramas.
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