terça-feira, 25 de junho de 2013

“Saramandaia”: Remake traz texto, direção e efeitos de qualidade, mas vem provar que Dias Gomes criou há quase quarenta anos uma obra que hoje precisa ser copiada para se ter um produto de qualidade em cena


Em tempos de protestos nas ruas da maioria das cidades brasileiras por uma série de reformas na política e sugestão da presidente Dilma Roussef de realizar um plebiscito, o remake de “Saramandaia” não teria momento melhor de estrear como a nova novela das 23h da Rede Globo. Logo no primeiro capítulo, que foi ao ar na segunda-feira (24), já se percebeu que a adaptação feita pelo autor Ricardo Linhares manterá fielmente o realismo fantástico e o tom político que pontuaram a obra de Dias Gomes, que escreveu a versão original exibida em 1976.

Logo na abertura se viu uma manifestação comandada por jovens pedindo um plebiscito para que a cidade Bole-Bole troque de nome e passe a se chamar Saramandaia. É claro que, 37 anos depois, a história hoje ganhou uma linguagem visual que usa e abusa dos avanços da tecnologia. Na trama, os embates entre as facções tradicionalistas e mudancistas continuam, mas ganharam novos representantes.

A direção geral de Denise Saraceni e Fabrício Mamberti promete inovar, mas sem fugir do olhar dado por Walter Avancini, Roberto Talma e Gonzaga Blota na primeira versão. O elenco também continua sendo de primeira linha. Destaque na estréia para Gabriel Braga Nunes, como o Professor Aristóbulo, que vira lobisomem nas noites de lua cheia; Marcos Palmeira como Cazuza Moreira, que “ressuscita” no meio do próprio velório, Fernanda Montenegro como Candinha, que corre atrás de galinhas imaginárias, e Sérgio Guizé, a quem coube a difícil de encarnar o novo João Gibão, personagem marcante de Juca de Oliveira que carregava uma corcunda revelada no final como um par de asas.

Da Bahia, a história passou a ser ambientada em Pernambuco. E para incrementar o realismo fantástico, além do homem que põe formigas pelo nariz tem o que bota o coração pela boca. Também continuam a mulher que incendeia tudo que toca e a que come compulsivamente. Sem dúvida, a caracterização de Vera Holtz para viver Dona Redonda está bem feita, mas não tem a mesma naturalidade que tinha quando a personagem foi vivida por Wilza Carla.

Vale lembrar que a cena da explosão de Dona Redonda deu trabalho no original, pela falta de recursos. A direção teve que colocar um boneco inflável vestido com as roupas de Wilza, enchido com um compressor manual. Ou seja, o que explodiu foi um balão. Coisa que hoje poderá ser feito através da computação gráfica. Assim como não será surpresa rever o emblemático vôo de João Gibão no último capítulo, já que cena semelhante foi copiada recentemente no remake de “O Astro”, quando Herculano Quintanilha (Rodrigo Lombardi) se transformou em pássaro e saiu voando para fugir da polícia.

O primeiro capítulo deu sinais de que a nova "Saramandaia" está muito bem feita, mas, como geralmente acontece com remake, ainda não se compara ao original. Sem dúvida, Dias Gomes criou há quase quarenta anos uma obra que hoje precisam copiar para se ter de novo um produto de qualidade em cena. No livro “Apenas Um Subversivo”, autobiografia do autor, ele próprio revelou que “Saramandaia” tinha o propósito de driblar a censura da época, incluindo metáforas e símbolos. Os tempos são outros, os recursos são outros, mas, infelizmente, a maioria das novelas inéditas não acompanha essas evoluções em termos de conteúdo, seja em que gênero for.

Mais Dias Gomes em:

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