segunda-feira, 8 de junho de 2015

“Amorteamo”: Expressionismo explorado em cenários e caracterização contribui para alta qualidade de melodrama sobrenatural


O sobrenatural tentando assombrar com tiradas sorrateiras de humor negro o melodrama de “Amorteamo” não chegou a dar à série, que chegou ao fim nessa sexta-feira (5) na Rede Globo, um status de “grande inovação” no gênero, mas certamente ela pode ser incluída entre mais uma proposta experimental que deu certo na TV. Embora precise rever alguns pontos, como a ideia de ir ao ar em episódios semanais. No caso, foram cinco exibidos às sextas-feiras. Com um formato em que o capítulo seguinte não inicia necessariamente a partir do final do anterior, a distância de uma semana entre um e outro quebra a sequência, deixando em quem assiste a sensação de que perdeu algo no meio do caminho.

Felizmente a internet está aí para nos oferecer a opção de esperar para assistir ao conjunto da obra online sem intervalos. Foi o que fiz. E o que vi foi uma reunião perfeita entre seus criadores: está ali o timing de comédia do cotidiano de Cláudio Paiva associado à pegada “sandália de couro nordestina” de Guel Arraes e ambos bebendo com vontade na teatralidade de Newton Moreno. Cada um pontuando com seu estilo próprio o mosaico de uma história que se passa no Recife do século XX, onde o amor e a morte, mesmo estando separados, acabam caminhando juntos graças à intervenção constante da vingança.

Tudo começa quando Arlinda (Letícia Sabatella), casada com Aragão (Jackson Antunes), é flagrada na cama com Chico (Daniel de Oliveira). O marido mata o rival com um tiro e isola a mulher no sótão e só sabe mais tarde que ela está grávida do amante, dando à luz a Gabriel (Johnny Massaro). Ao crescer, o jovem se apaixona por Lena (Arianne Botelho), que por sua vez é filha da empregada, gerada de uma relação de Aragão com a serviçal, e é obrigado pelo pai a se casar com Malvina (Marina Ruy Barbosa). Mas, ao descobrir que não é meio-irmão de Lena, Gabriel abandona a noiva no altar. E aí começa o ápice do drama. Malvina comete o suicídio, mas ressurge do mundo dos mortos, trazendo consigo outros cadáveres do cemitério da cidade, que voltam obcecados pelo desejo de se vingarem de seus algozes.

Difícil destacar no elenco quem teve maior destaque, já que é marcante o quanto todos se entregaram de corpo e alma a seus personagens. Cada um teve seu momento de protagonista em seu próprio espaço, como aconteceu com Guta Stresser e Aramis Trindade, respectivamente a fofoqueira Cândida e o atrapalhado Manuel, donos do bar da cidade. E o irretocável Tonico Pereira que, em mais um grande momento em sua longa carreira, voltou a se superar interpretando o coveiro Zé, principal elo entre os vivos e os mortos.

A influência do cinema não tentou ser escamoteada na série e foi assumidamente escancarada no figurino, que traz inspiração clara no filme “A Noiva Cadáver”, de Tim Burton, enquanto os cenários sombrios criados por Yurika Yamasaki trazem uma influência latente do expressionismo, ainda mais revigorado pela luz dramática muito bem explorada pela direção de Flávia Lacerda e Isabela Teixeira, e pelo cuidadoso trabalho de efeitos especiais feitos em computação gráfica. E a trilha sonora de João Falcão incorporou literalmente o espírito de cada cena.


O desfecho no quinto episódio, lançando mão do conhecido recurso de se traçar um paralelo entre o que já aconteceu no passado e o que está acontecendo no presente deixou no ar a sugestão de que se acontecer uma nova temporada no futuro não será uma ideia do outro mundo. O que não deixa de ser um bom presságio.