sábado, 24 de setembro de 2016

“Justiça”: Com texto inteligente e direção artística competente, desfecho surpreende apesar de algumas soluções previsíveis


A forma sútil e ao mesmo tempo latente como se deu o entrelaçamento de personagens nos desfechos das quatros histórias interligadas contadas em “Justiça”, coroou de forma inteligente a série que chegou ao fim na Rede Globo essa semana. E mesmo com sequências de fatos aparentemente aleatórios, mas algumas vezes até absurdamente interdependentes, e personagens comuns passeando em universos distintos, a autora Manuela Dias conseguiu dar a cada trama um final próprio, sem no entanto colocar um ponto final absoluto. Talvez por isso todos terminaram em um fade out, ou seja, com uma espécie de última cena inacabada, para que as reflexões tivessem liberdade para prosseguir dentro da individualidade do ponto de vista de cada um.

Em termos de interpretação, Adriana Esteves e Débora Bloch se sobressaíram em mais uma demonstração de atuação impecável, de poder de transformação e de entrega visceral a suas personagens. Adriana traz na sua história o exemplo de quem não se deixou abater por um momento não muito bem sucedido (“Renascer”,1993) e, através de trabalhos realmente à altura de seu talento (“Dalva & Herivelto, Uma Canção de Amor”, 2010, e “Avenida Brasil”, 2012) mostrou toda sua capacidade de se reinventar e de corresponder quando bons papéis lhe são confiados. Já no caso de Débora, embora premiada por vários trabalhos em cinema, na televisão sua veia humorística ficou registrada em trabalhos memoráveis em programas como “TV Pirata” nos anos 80 e “A Comédia da Vida Privada” nos anos 90. Mas a versatilidade para papéis dramáticos também ficou conhecida em novelas, como em “Cordel Encantado”, em 2011. Ou seja, são duas atrizes que sabem lapidar suas personagens e transforma pedras brutas em verdadeiros diamantes.

No elenco masculino, é inegável a contribuição de Jesuíta Barbosa como protagonista no papel de Vicente, o noivo traído que mata a noiva a tiros, fica preso sete anos e ao ser libertado se envolve com Elisa (Débora Bloch), a ex-sogra que tem ideia fixa de vingar a filha assassinada. O ator pernambucano valorizou o personagem nos mais diversos universos por onde ele circulou, passando pelo luxo do filho de papai bon vivant até o ex presidiário que foi ser morador de cortiço com a mulher e uma filha, empregado e aluno em uma universidade. O drama de Vicente foi feito de sobressaltos do início ao fim. Não à toa foi um verdadeiro choque a cena do acidente com o carro dirigido por ele, enquanto Elisa, no banco do carona, assiste à sua morte, coberto de sangue, como estava o corpo de Isabela (Marina Rui Barbosa) no colo da mãe.

Igualmente vale ressaltar o amadurecimento e comprometimento de Cauã Reymond em cena, em um papel que exigiu do ator um grau de responsabilidade e seriedade ainda não visto nos seus trabalhos anteriores. Mas é difícil falar em destaques quando se tem no elenco nomes consagrados como os de Drica Moraes, Henrique Diaz, Leandra Leal, Marina Ruy Barbosa, Antônio Calloni, Luísa Arraes...  Assim como Vladimir Brichta, que desde a primeira semana chamou a atenção pelo fato de seu personagem, Celso, o dono de um quiosque na praia, servir como uma espécie de carretel usado para alinhavar uma história na outra. O personagem era uma espécie de coringa interferindo nas histórias de uma forma comprometida, mas sempre parecendo ser descompromissada. Foi um fora da lei que não julgava, mas não titubeava em ajudar para que fosse feita a justiça emocional considerada justa por aqueles que ele tinha como seus pares. E o final feliz de Celso foi justamente com Rose (Jéssica Ellen), a garota que foi condenada a sete anos de prisão após ser pega em flagrante com a droga que havia comprado no quiosque dele.

“Justiça” fez jus ao título tanto nas interpretações impecáveis quanto na direção artística inspirada de Luiz Villamarim, que, embalada por uma trilha sonora que soube valorizar hits antigos e atuais da MPB, provocou as reflexões mais diversas, inclusive as ocultas em campos sombrios, através de um texto inteligente, engajado, consistente... Reflexivo.










Mais "Justiça" em:
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quarta-feira, 21 de setembro de 2016

“Supermax”: Proposta de fazer reality show dentro da ficção é bem executada, mas ganharia se não tivesse no elenco atores no ar em outras produções simultaneamente


Para os aficionados em suspense e terror, “Supermax”, que estreou nessa terça-feira (20), é uma série bem realizada pela Rede Globo em termos de produção e direção. O nível de qualidade não chega a atingir padrões internacionais, mas trata-se de um projeto ousado que representa bem o gênero na televisão brasileira. A assinatura de José Alvarenga Jr. na criação e concepção, ao lado de Marçal Aquino e Fernando Bonassi, já é garantia de uma inovação pesquisada e construída em bases confiáveis.

Pode ser boa a ideia de replicar um reality show dentro de uma série ficcional, mas não é fácil de executar já que o desafio maior está em incutir no público a sensação de vida real, quando na verdade trata-se de uma história interpretada por atores. E, para complicar ainda mais, alguns deles simultaneamente no ar em outras obras da emissora, como Cleo Pires e Mariana Ximenes, que também integram o elenco da novela das sete “Haja Coração”.

Para tentar confundir, o primeiro episódio conta com a participação do jornalista Pedro Bial na mesma função que exerceu nos últimos 16 anos como apresentador do “Big Brother Brasil”. Através de um monitor, tal qual no “BBB”, ele explica as regras do jogo para os sete homens e cinco mulheres que viverão três meses de confinamento em um presídio de segurança máxima desativado no meio de uma floresta, concorrendo a um prêmio de R$ 2 milhões. Os 12 foram selecionados por terem em comum o fato de já terem cometido um assassinato. Só que um não sabe do crime cometido pelo outro, o que acirra a desconfiança entre todos.

O problema é que a maioria dos participantes são figuras conhecidas. Além de Cleo Pires (Sabrina, psicóloga) e Mariana Ximenes (Bruna, enfermeira), estão no elenco Erom Cordeiro (Sérgio, ex-policial), Bruno Belarmino (Luisão, ex-lutador de MMA), Nicolas Trevijano (padre Nando), Ademir Emboava (José Augusto, assessor político), Maria Clara Spinelli (Janette, dona de salão de beleza), Rui Ricardo Diaz (Artur, ex-craque de futebol), Fabiana Gugli (Diana, ex-garota de programa), Mário César Camargo (Timóteo, médico reformado do Exército), Vania de Brito (Cecília, ex-socialite) e Ravel Andrade (Dante, jovem adepto a seitas satânicas).

Como a Globo já disponibilizou para assinantes na internet 11 dos 12 episódios, percebe-se logo nos quatro da primeira semana indícios sutis que podem levar às mais variadas conclusões sobre o que pode realmente ser esse reality dentro da ficção. Será que realmente trata-se de um show dentro de outro? Ou todos esses personagens foram levados para esse lugar como cobaias de alguma espécie de experimento científico ou psicológico, achando que estão em um jogo disputando um prêmio? Faz lembrar até o livro “Paciente 67”, de Dennis Lehane, em que é questionado o quanto de dor o cérebro humano pode suportar e até onde ele consegue ir antes que a demência supere a lucidez.

O roteiro de “Supermax” parece algumas vezes confuso ou desencontrado. Talvez por serem poucos episódios escritos por muitos autores. São oito: Bráulio Mantovani, Fernando Bonassi, Raphael Montes, Carolina Kotscho, Marçal Aquino, Dennison Ramalho, Juliana Rojas e Raphael Draccon. Mas a direção artística compensa traduzindo a textura sombria pedida no texto através de elementos como cenografia, fotografia, iluminação e trilha sonora. Sem dúvida, é uma aposta tanto ousada quanto arriscada. Mas arriscaria bem mais se no elenco fossem lançados atores desconhecidos ou que fossem, no mínimo, menos conhecidos do grande público.


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