quarta-feira, 19 de outubro de 2016

“Nada Será Como Antes”: Série prima por padrão de qualidade e ousadia na licença poética para contar de forma lúdica a criação da primeira emissora de TV no país


O beijo entre Beatriz e Júlia, personagens de Bruna Marquezine e Letícia Colin, foi o ponto alto do capítulo dessa terça-feira (18) de “Nada Será Como Antes”, na Rede Globo. Ambientada nos anos 50, a série que estreou há três semanas tem como mote central uma visão fictícia e romântica da criação da primeira emissora de televisão no Brasil, tendo como ponto de partida o rádio. Nela, Beatriz é uma cantora de cabaré que vira atriz graças a seu romance com Otaviano (Daniel Oliveira), principal patrocinador da TV Guanabara, mas acaba seduzindo também a irmã do rapaz, Júlia. Além do beijo na boca durante a primeira transmissão de um baile de carnaval, houve ainda a sequência da relação sexual das duas na cama. Beatriz, enquanto transava com Otaviano, percebe que está sendo espiada por Júlia pela fresta da porta do quarto e então espera ele dormir para ir ao quarto da cunhada seduzi-la. “Eu quero você e seu irmão. Vocês são tão gostosos, tão sexy”, diz ela, dando início ao triângulo amoroso da história.

Mas, independentemente dos jogos de seduções, prato cheio para qualquer programa repercutir nas redes sociais e assim tentar conquistar maior audiência, o que realmente conta é que para quem esperava que a criação da televisão fosse ser retratada seguindo fielmente a história da vida real, “Nada Será Como Antes” surpreende a cada episódio pela deliciosa ousadia em usar e abusar da liberdade poética nos mínimos detalhes. Ali a intenção de ter algum teor didático ou documental passou de forma lúdica, dando um colorido novo ao preto e branco da época.

Com direção artística de Luiz Villamarim, o trabalho de reconstituição da década é caprichado, com uma direção de arte meticulosamente impecável, figurinos que correspondem exatamente ao ambiente e ao momento que os personagens estão vivendo e uma iluminação sombria sem ser pesada. E no texto se sobressai a marca inconfundível de Jorge Furtado e Guel Arraes, que criaram a série e escrevem juntos com João Falcão. Os diálogos contêm uma pontuação marcante, o que permite uma interpretação também contundente dos atores.

Protagonistas da série, Murilo Benício e Débora Falabella, respectivamente nos papéis de Saulo, o produtor e criador da emissora de TV, e Verônica, grande estrela de novelas, formam um casal tão crível na ficção quanto o são na vida real. Talvez esse tipo de artifício, mesmo que não tenha sido intencional, já não cause o mesmo efeito dos tempos em que Tarcísio Meira e Glória Menezes faziam o jovem par romântico dos folhetins. Murilo e Débora, no entanto, conseguem delimitar bem o talento individual de cada um em cena.

Apesar da polêmica em torno dos dotes sensuais que Bruna Marquezine vem mostrando, o que realmente merecerá destaque no quarto e próximo episódio a ser exibido, que já está disponível no Globo Play, será mais uma interpretação magistral de Cássia Kiss. No papel da mãe de Beatriz, a atriz comove como a humilde empregada doméstica que de repente se vê diante de um aparelho de televisão para assistir pela primeira vez à filha atuando na novela. Sozinha em casa, dona Odete veste sua melhor roupa e até passa perfume atrás da orelha para se sentar à frente do televisor, e, sem dizer uma palavra, sem fazer qualquer gesto, protagoniza uma cena que é um verdadeiro transbordamento de emoção. Essa, sim, merece todos os aplausos.




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